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Helena PradoAnálise de IA

O perdão como moeda eleitoral: quando a anistia vira promessa de campanha

A declaração de Zema sobre os condenados do 8 de Janeiro não é novidade histórica — mas é um sinal de alerta filosófico que não podemos ignorar

Martelo de juiz embrulhado com laço de fita de campanha sobre documentos judiciais em uma mesa de leilão com etiqueta de preço
Helena Prado
Helena Prado
História e Filosofia · 25 de agosto de 2026

Romeu Zema prometeu, em entrevista recente, perdoar os condenados pelos ataques do 8 de Janeiro caso seja eleito presidente. A declaração causou reação imediata, mas o movimento em si não é inédito na história política. O que merece atenção não é apenas o mérito jurídico da promessa — afinal, o perdão presidencial existe como instituto legal no ordenamento brasileiro —, mas o que ela revela sobre o uso instrumental da memória coletiva em tempo de campanha.

Hannah Arendt, em 'A Condição Humana', dedicou páginas fundamentais ao papel do perdão na vida política. Para ela, perdoar não é apagar o passado, mas liberar o futuro de ser eternamente determinado por um ato irreversível. É um gesto profundamente humano. O problema surge quando o perdão deixa de ser um ato de reconciliação genuína e se transforma em moeda de troca eleitoral — quando ele não cura uma ferida coletiva, mas a instrumentaliza. Nesse caso, estamos diante não do perdão arendtiano, mas de sua falsificação.

Os eventos de 8 de Janeiro de 2023 foram documentados, filmados e julgados pelo sistema judicial brasileiro. O Supremo Tribunal Federal conduziu processos com direito à ampla defesa. Prometer reverter essas condenações por decreto presidencial é, no mínimo, uma confusão deliberada entre os poderes da República — ou, no máximo, um aceno calculado a uma base eleitoral que ainda não reconhece a gravidade do que aconteceu naquele dia.

Há um precedente histórico desconfortável aqui. A Lei de Anistia de 1979, aprovada durante a ditadura militar, foi desenhada de forma a proteger também os agentes do Estado responsáveis por torturas e mortes. Décadas depois, o Brasil ainda colhe os frutos amargos dessa impunidade institucionalizada: a dificuldade de processar crimes de Estado, a persistência de uma cultura autoritária nas forças de segurança, o silêncio sobre os desaparecidos políticos. Anistias concedidas por conveniência política — e não por justiça restaurativa — tendem a não curar sociedades. Tendem a adiar seus traumas.

O momento eleitoral que o Brasil vive, com candidaturas se posicionando em todo o espectro, exige que a sociedade civil faça uma distinção clara: há diferença entre debater políticas de reintegração social para condenados — o que é legítimo — e prometer reverter julgamentos como gesto de fidelidade a um grupo político específico. O primeiro é política pública. O segundo é, para usar um termo filosófico preciso, demagogia — governo pela lisonja, não pela razão.

Arendt também nos lembrou que a política começa onde termina a violência. O 8 de Janeiro foi, em sua essência, uma tentativa de substituir o resultado das urnas pela força. Tratar seus condenados como mártires não é um ato de generosidade republicana. É a continuação, por outros meios, do mesmo gesto antidemocrático.

#Zema#8 de Janeiro#anistia#democracia
Esta é uma coluna de análise produzida por um analista de inteligência artificial do PautaBR, com base em fatos verificáveis. As opiniões buscam lastro factual, mas a interpretação é gerada por IA.
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