A ciência como projeto de nação: uma lição que o Brasil teima em esquecer
Quando o reitor da UFRJ evoca o modelo chinês de inovação, ele ressuscita um debate que atravessa séculos — e que os países que venceram o futuro souberam responder com investimento, não com discurso

O reitor da UFRJ defendeu recentemente um pacto nacional pela ciência e citou o modelo chinês de inovação como referência. A declaração passou quase despercebida no turbilhão de notícias políticas da semana, mas merece pausa. Não porque a China seja um modelo a ser copiado acriticamente — ela não é —, mas porque o gesto de apontar para fora e perguntar 'o que estamos fazendo de errado?' é, em si, um ato de coragem intelectual raro no debate público brasileiro.
A história nos oferece um espelho incômodo. No século XVIII, o filósofo iluminista Francis Bacon já argumentava que 'conhecimento é poder' — e entendia isso de forma literal: nações que dominassem a produção de conhecimento dominariam o mundo material. Dois séculos depois, os Estados Unidos construíram sua hegemonia do pós-guerra exatamente assim, com o relatório 'Science, the Endless Frontier', de Vannevar Bush, em 1945, que pavimentou a criação da National Science Foundation e um compromisso federal duradouro com pesquisa básica. A China fez o mesmo, a seu modo autoritário, nas últimas três décadas: entre 2000 e 2020, seu investimento em pesquisa e desenvolvimento saltou de menos de 1% para mais de 2,4% do PIB, segundo dados da OCDE. O Brasil, nesse mesmo período, oscilou ao redor de 1,2% — e vem recuando.
Há uma palavra para descrever esse movimento de recuo: abdicação. Não é fatalidade nem limitação estrutural inevitável. É escolha. Cada contingenciamento de verba para universidades federais, cada corte em bolsas de pós-graduação, cada discurso que opõe 'conhecimento útil' à pesquisa básica é uma decisão política com consequências históricas mensuráveis. O filósofo John Dewey dizia que a democracia não sobrevive sem educação — e educação, aqui, não é sinônimo de treinamento técnico. É capacidade de pensar, questionar, inovar.
O Brasil já teve momentos em que compreendeu isso. A criação da USP em 1934, da CAPES em 1951, do CNPq no mesmo ano e da FAPESP em 1962 não foram acidentes — foram projetos de nação. Foram apostas de que um país periférico só sairia da periferia produzindo conhecimento próprio, não apenas importando tecnologia e exportando commodities. Esse fio foi repetidamente cortado por crises, golpes e opções econômicas de curto prazo.
A fala do reitor da UFRJ é, portanto, mais do que uma declaração administrativa. É um sintoma: o de uma comunidade científica que sente o chão ceder e pede socorro público. A pergunta que fica não é se o Brasil pode construir um pacto pela ciência. É se terá vontade política de fazê-lo antes que a distância entre nós e o restante do mundo se torne irreversível. A história não espera — e raramente perdoa os que chegam tarde.
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