← Análise
Helena PradoAnálise de IA

A ciência como projeto de nação: uma lição que o Brasil teima em esquecer

Quando o reitor da UFRJ evoca o modelo chinês de inovação, ele ressuscita um debate que atravessa séculos — e que os países que venceram o futuro souberam responder com investimento, não com discurso

Bancada de laboratório abandonada e empoeirada em primeiro plano, com microscópio antigo e velas apagadas, enquanto ao fundo torres iluminadas brilham na noite
Helena Prado
Helena Prado
História e Filosofia · 04 de agosto de 2026

O reitor da UFRJ defendeu recentemente um pacto nacional pela ciência e citou o modelo chinês de inovação como referência. A declaração passou quase despercebida no turbilhão de notícias políticas da semana, mas merece pausa. Não porque a China seja um modelo a ser copiado acriticamente — ela não é —, mas porque o gesto de apontar para fora e perguntar 'o que estamos fazendo de errado?' é, em si, um ato de coragem intelectual raro no debate público brasileiro.

A história nos oferece um espelho incômodo. No século XVIII, o filósofo iluminista Francis Bacon já argumentava que 'conhecimento é poder' — e entendia isso de forma literal: nações que dominassem a produção de conhecimento dominariam o mundo material. Dois séculos depois, os Estados Unidos construíram sua hegemonia do pós-guerra exatamente assim, com o relatório 'Science, the Endless Frontier', de Vannevar Bush, em 1945, que pavimentou a criação da National Science Foundation e um compromisso federal duradouro com pesquisa básica. A China fez o mesmo, a seu modo autoritário, nas últimas três décadas: entre 2000 e 2020, seu investimento em pesquisa e desenvolvimento saltou de menos de 1% para mais de 2,4% do PIB, segundo dados da OCDE. O Brasil, nesse mesmo período, oscilou ao redor de 1,2% — e vem recuando.

Há uma palavra para descrever esse movimento de recuo: abdicação. Não é fatalidade nem limitação estrutural inevitável. É escolha. Cada contingenciamento de verba para universidades federais, cada corte em bolsas de pós-graduação, cada discurso que opõe 'conhecimento útil' à pesquisa básica é uma decisão política com consequências históricas mensuráveis. O filósofo John Dewey dizia que a democracia não sobrevive sem educação — e educação, aqui, não é sinônimo de treinamento técnico. É capacidade de pensar, questionar, inovar.

O Brasil já teve momentos em que compreendeu isso. A criação da USP em 1934, da CAPES em 1951, do CNPq no mesmo ano e da FAPESP em 1962 não foram acidentes — foram projetos de nação. Foram apostas de que um país periférico só sairia da periferia produzindo conhecimento próprio, não apenas importando tecnologia e exportando commodities. Esse fio foi repetidamente cortado por crises, golpes e opções econômicas de curto prazo.

A fala do reitor da UFRJ é, portanto, mais do que uma declaração administrativa. É um sintoma: o de uma comunidade científica que sente o chão ceder e pede socorro público. A pergunta que fica não é se o Brasil pode construir um pacto pela ciência. É se terá vontade política de fazê-lo antes que a distância entre nós e o restante do mundo se torne irreversível. A história não espera — e raramente perdoa os que chegam tarde.

#ciência#universidade#educação#política pública
Esta é uma coluna de análise produzida por um analista de inteligência artificial do PautaBR, com base em fatos verificáveis. As opiniões buscam lastro factual, mas a interpretação é gerada por IA.
Compartilhar

Mais de Helena Prado

Ver todas →
Martelo de juiz embrulhado com laço de fita de campanha sobre documentos judiciais em uma mesa de leilão com etiqueta de preço
25 de ago. de 2026

O perdão como moeda eleitoral: quando a anistia vira promessa de campanha

A declaração de Zema sobre os condenados do 8 de Janeiro não é novidade histórica — mas é um sinal de alerta filosófico que não podemos ignorar

Papel de medida protetiva amassado no chão, cuja sombra forma grades que se dissolvem antes de chegar a uma porta fechada
18 de ago. de 2026

O silêncio que mata: medidas protetivas e a velha ilusão de que o Estado protege

Quando um papel não basta para deter a violência, precisamos perguntar o que, afinal, estamos chamando de proteção

Corrente de ferro com elos em forma de objetos domésticos terminando em elo partido sobre mancha vermelha, simbolizando feminicídio como estrutura histórica e não evento isolado
11 de ago. de 2026

O namorado que mata e a história que ensina: feminicídio não é tragédia, é estrutura

A morte de uma jovem de 19 anos em Santa Catarina não é um episódio isolado — é o elo mais visível de uma corrente que a filosofia e a história já descreveram com precisão

Cartão de ponto de fábrica e celular com app de apostas acorrentados juntos sobre mesa de madeira sob luz fluorescente
21 de jul. de 2026

A aposta como espelho: quando o vício revela a lógica de um tempo

A epidemia das bets não é um acidente moral — é o sintoma de uma era que transformou a incerteza em mercadoria

Diploma enrolado sobre um túmulo com terra e flores silvestres ao redor
07 de jul. de 2026

O diploma que chegou tarde demais — e a memória que não pode esperar

A homenagem póstuma a Stuart Angel pela UFRJ é um gesto necessário. Mas ela nos obriga a perguntar: por que as democracias demoram tanto para ajustar as contas com seus próprios crimes?

Relógio de ponto antigo e celular com aplicativo de entrega, lado a lado no chão de concreto, projetando sombras em forma de correntes em direção a um círculo de luz
01 de jul. de 2026

Oito horas para viver: o que as ruas ainda gritam depois de dois séculos

As multidões que tomaram a Paulista pelo fim da escala 6x1 repetem, sem saber, um grito que nasceu nas fábricas do século XIX. A história esquecida pode ser nossa melhor bússola.