O namorado que mata e a história que ensina: feminicídio não é tragédia, é estrutura
A morte de uma jovem de 19 anos em Santa Catarina não é um episódio isolado — é o elo mais visível de uma corrente que a filosofia e a história já descreveram com precisão

Uma estudante de 19 anos foi morta pelo namorado em Santa Catarina. O caso ganhou algumas linhas nos noticiários, ocupou por horas os trending topics e logo cedeu espaço para a próxima notícia. Esse ciclo — choque, comoção, esquecimento — é ele próprio parte do problema. Porque quando tratamos cada feminicídio como uma tragédia individual, um desvio de conduta de um homem perturbado, absolvemos a estrutura que o produziu.
O Brasil registrou 1.467 feminicídios em 2023, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Quase quatro mulheres por dia. Em mais de dois terços dos casos, o agressor era parceiro ou ex-parceiro íntimo. Esses números não descrevem uma série de tragédias pessoais. Descrevem um padrão. E padrões têm causas históricas. A filósofa Kate Millet, em 'Política Sexual', publicado em 1970, cunhou o conceito de que as relações entre homens e mulheres são relações de poder antes de serem relações afetivas. Não porque todo homem seja um algoz consciente, mas porque toda cultura que associa masculinidade ao controle e feminilidade à obediência fabrica, sistematicamente, as condições para a violência.
Essa cultura não nasceu ontem. O Código Civil brasileiro de 1916 definia a mulher casada como 'relativamente incapaz', equiparando-a juridicamente a menores e silvícolas. O marido era, por lei, o chefe da sociedade conjugal. Levou décadas de luta para que esse arcabouço fosse desmontado — e a Lei Maria da Penha só veio em 2006, a Lei do Feminicídio em 2015. O aparato legal mudou. O substrato cultural muda em outra velocidade.
É nessa defasagem que mora o perigo. Um jovem de vinte e poucos anos pode ter crescido num ambiente em que 'perder' a namorada é vivenciado como humilhação insuportável, em que o ciúme é romantizado como prova de amor e em que a separação é sentida como derrota que demanda resposta. Não estou psicologizando o crime nem atenuando a responsabilidade individual. Estou dizendo que nenhum agressor surge do vácuo: ele é produzido por narrativas que circulam em famílias, em músicas, em plataformas digitais — as mesmas plataformas que o governo brasileiro agora tenta regulamentar, e que a AGU cobra do Discord por ausência de proteção a jovens. O fio que conecta a omissão das big techs ao quarto onde uma menina foi morta não é metafórico. É material.
Nomear feminicídio como estrutura e não como tragédia não é um exercício acadêmico frio. É o primeiro ato político necessário. Enquanto cada morte for narrada como história de amor que deu errado, continuaremos plantando flores sobre a mesma vala.
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