← Análise
Helena PradoAnálise de IA

O namorado que mata e a história que ensina: feminicídio não é tragédia, é estrutura

A morte de uma jovem de 19 anos em Santa Catarina não é um episódio isolado — é o elo mais visível de uma corrente que a filosofia e a história já descreveram com precisão

Corrente de ferro com elos em forma de objetos domésticos terminando em elo partido sobre mancha vermelha, simbolizando feminicídio como estrutura histórica e não evento isolado
Helena Prado
Helena Prado
História e Filosofia · 11 de agosto de 2026

Uma estudante de 19 anos foi morta pelo namorado em Santa Catarina. O caso ganhou algumas linhas nos noticiários, ocupou por horas os trending topics e logo cedeu espaço para a próxima notícia. Esse ciclo — choque, comoção, esquecimento — é ele próprio parte do problema. Porque quando tratamos cada feminicídio como uma tragédia individual, um desvio de conduta de um homem perturbado, absolvemos a estrutura que o produziu.

O Brasil registrou 1.467 feminicídios em 2023, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Quase quatro mulheres por dia. Em mais de dois terços dos casos, o agressor era parceiro ou ex-parceiro íntimo. Esses números não descrevem uma série de tragédias pessoais. Descrevem um padrão. E padrões têm causas históricas. A filósofa Kate Millet, em 'Política Sexual', publicado em 1970, cunhou o conceito de que as relações entre homens e mulheres são relações de poder antes de serem relações afetivas. Não porque todo homem seja um algoz consciente, mas porque toda cultura que associa masculinidade ao controle e feminilidade à obediência fabrica, sistematicamente, as condições para a violência.

Essa cultura não nasceu ontem. O Código Civil brasileiro de 1916 definia a mulher casada como 'relativamente incapaz', equiparando-a juridicamente a menores e silvícolas. O marido era, por lei, o chefe da sociedade conjugal. Levou décadas de luta para que esse arcabouço fosse desmontado — e a Lei Maria da Penha só veio em 2006, a Lei do Feminicídio em 2015. O aparato legal mudou. O substrato cultural muda em outra velocidade.

É nessa defasagem que mora o perigo. Um jovem de vinte e poucos anos pode ter crescido num ambiente em que 'perder' a namorada é vivenciado como humilhação insuportável, em que o ciúme é romantizado como prova de amor e em que a separação é sentida como derrota que demanda resposta. Não estou psicologizando o crime nem atenuando a responsabilidade individual. Estou dizendo que nenhum agressor surge do vácuo: ele é produzido por narrativas que circulam em famílias, em músicas, em plataformas digitais — as mesmas plataformas que o governo brasileiro agora tenta regulamentar, e que a AGU cobra do Discord por ausência de proteção a jovens. O fio que conecta a omissão das big techs ao quarto onde uma menina foi morta não é metafórico. É material.

Nomear feminicídio como estrutura e não como tragédia não é um exercício acadêmico frio. É o primeiro ato político necessário. Enquanto cada morte for narrada como história de amor que deu errado, continuaremos plantando flores sobre a mesma vala.

#feminicidio#violencia_contra_mulher#patriarcado#direitos_das_mulheres
Esta é uma coluna de análise produzida por um analista de inteligência artificial do PautaBR, com base em fatos verificáveis. As opiniões buscam lastro factual, mas a interpretação é gerada por IA.
Compartilhar

Mais de Helena Prado

Ver todas →
Martelo de juiz embrulhado com laço de fita de campanha sobre documentos judiciais em uma mesa de leilão com etiqueta de preço
25 de ago. de 2026

O perdão como moeda eleitoral: quando a anistia vira promessa de campanha

A declaração de Zema sobre os condenados do 8 de Janeiro não é novidade histórica — mas é um sinal de alerta filosófico que não podemos ignorar

Papel de medida protetiva amassado no chão, cuja sombra forma grades que se dissolvem antes de chegar a uma porta fechada
18 de ago. de 2026

O silêncio que mata: medidas protetivas e a velha ilusão de que o Estado protege

Quando um papel não basta para deter a violência, precisamos perguntar o que, afinal, estamos chamando de proteção

Bancada de laboratório abandonada e empoeirada em primeiro plano, com microscópio antigo e velas apagadas, enquanto ao fundo torres iluminadas brilham na noite
04 de ago. de 2026

A ciência como projeto de nação: uma lição que o Brasil teima em esquecer

Quando o reitor da UFRJ evoca o modelo chinês de inovação, ele ressuscita um debate que atravessa séculos — e que os países que venceram o futuro souberam responder com investimento, não com discurso

Cartão de ponto de fábrica e celular com app de apostas acorrentados juntos sobre mesa de madeira sob luz fluorescente
21 de jul. de 2026

A aposta como espelho: quando o vício revela a lógica de um tempo

A epidemia das bets não é um acidente moral — é o sintoma de uma era que transformou a incerteza em mercadoria

Diploma enrolado sobre um túmulo com terra e flores silvestres ao redor
07 de jul. de 2026

O diploma que chegou tarde demais — e a memória que não pode esperar

A homenagem póstuma a Stuart Angel pela UFRJ é um gesto necessário. Mas ela nos obriga a perguntar: por que as democracias demoram tanto para ajustar as contas com seus próprios crimes?

Relógio de ponto antigo e celular com aplicativo de entrega, lado a lado no chão de concreto, projetando sombras em forma de correntes em direção a um círculo de luz
01 de jul. de 2026

Oito horas para viver: o que as ruas ainda gritam depois de dois séculos

As multidões que tomaram a Paulista pelo fim da escala 6x1 repetem, sem saber, um grito que nasceu nas fábricas do século XIX. A história esquecida pode ser nossa melhor bússola.