Benito Di Paula e o samba que o poder nunca conseguiu calar
A morte de um ícone da música popular brasileira nos lembra que a cultura popular é, antes de tudo, um ato de resistência e de pertencimento

Benito Di Paula morreu aos 84 anos e levou consigo uma voz que soube habitar o lugar mais difícil da música brasileira: aquele entre a sofisticação harmônica e a simplicidade do povo. Filho de imigrantes italianos criado no ABC paulista, ele construiu uma obra que misturava samba, pagode e balada com uma dignidade rara. Sua morte, quase silenciosa nos noticiários dominados pelo barulho eleitoral, diz algo sobre como tratamos nossa memória cultural.
Enquanto debates viram caos e candidatos trocam acusações em horário nobre, uma multidão ocupava Copacabana num ato musical pela reeleição de Lula. A cena é simbólica demais para ser ignorada. A política, quando se esgota na retórica, volta a buscar legitimidade na cultura. O comício vira show. O palanque vira palco. E o povo, que entende essa linguagem melhor do que qualquer marqueteiro, responde com o corpo, com a voz, com a presença. Não é manipulação: é memória. O Brasil sempre resolveu suas tensões também através da música.
Benito Di Paula conhecia bem esse território. Canções como 'Como Vai Você' atravessaram décadas porque tocavam em algo que a política raramente consegue nomear: a saudade, a vulnerabilidade, o desejo de ser visto. A música popular brasileira tem essa capacidade quase antropológica de guardar o que a história oficial descarta. Ela arquiva dor, alegria, contradição. É um documento vivo de quem somos quando ninguém está nos observando.
Vivemos um momento em que a disputa pelo imaginário coletivo é tão intensa quanto a disputa pelos votos. Candidatos brigam por qual versão do Brasil vai prevalecer. E a cultura, muitas vezes tratada como acessório ou como palanque, é na verdade o campo onde essa batalha se decide de verdade. Não são os debates que formam identidades. São as músicas que as pessoas cantam no chuveiro, os filmes que as fazem chorar, as histórias que passam de geração em geração.
A morte de Benito Di Paula deveria nos convocar a uma pergunta desconfortável: quantos outros nomes da cultura popular brasileira morrem em silêncio, sem que o país pare para reconhecer o que perde? Vivemos uma época que celebra o efêmero e esquece o que tem raiz. Mas é justamente a raiz que sustenta qualquer projeto de futuro. Sem memória cultural viva, qualquer proposta de país novo é apenas retórica.
Que Benito descanse. E que sua obra continue fazendo o que sempre fez: lembrar que existe um Brasil que sente, que canta e que, apesar de tudo, ainda acredita que a beleza é uma forma de política.
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