A charge que o poder não quer ver
Miguel Paiva e a tradição da arte como resistência num país que insiste em esquecer seus próprios espelhos

Quando Miguel Paiva publica uma charge, ele não está apenas comentando o noticiário. Ele está exercendo um dos mais antigos e perigosos ofícios da humanidade: mostrar ao rei que ele está nu. 'Na Sorte', sua mais recente peça sobre a conjuntura política brasileira, chega num momento em que a sátira deixou de ser luxo e voltou a ser necessidade de sobrevivência coletiva.
A charge tem uma genealogia longa e honrosa. No Brasil, Angelo Agostini, no século XIX, usou o traço para denunciar a escravidão quando isso era literal e juridicamente perigoso. Charge é documento, é testemunho, é grito comprimido em centímetros quadrados de papel. Quando a imprensa ocidental discute liberdade de expressão, costuma lembrar do ataque ao Charlie Hebdo em 2015, que matou doze pessoas na redação parisiense. Mas esquece, conveniente e sistematicamente, que na América Latina chargistas são silenciados por outros meios — processos, demissões, ameaças, invisibilidade algorítmica.
O que a obra de Paiva provoca, neste momento específico, é uma questão que vai além do humor: em que tipo de espaço público queremos viver? A pergunta é urgente porque estamos assistindo, simultaneamente, a uma proposta de fim da CLT que retiraria o salário fixo de trabalhadores, à discussão sobre interferência estrangeira em eleições de 2026 — temida por metade dos brasileiros segundo o Datafolha — e a um debate presidencial que perde candidatos como peças de um quebra-cabeça desinteressado. A política virou espetáculo sem roteiro e a arte, frequentemente, é o único lugar onde isso pode ser dito com clareza.
Existe uma função sociológica da sátira que Pierre Bourdieu ajudaria a nomear: ela opera no campo simbólico, desestabilizando o que parece natural e inevitável. Quando Paiva desenha a conjuntura brasileira como jogo de sorte, ele está dizendo que a política virou cassino — e que quem perde, como sempre, não são os donos da casa. Essa é uma declaração estética e política ao mesmo tempo, indissociáveis.
Como mulher trans que aprendeu a ler o mundo através das margens, sei que a arte produzida fora do centro tem uma percepção aguçada sobre o que o centro prefere não ver. A charge, o grafite, a poesia de sarjeta, o funk periférico — todas essas formas carregam um saber sobre o Brasil real que nenhum agregador de pesquisas eleitorais, por mais sofisticado que seja, consegue capturar.
O que Miguel Paiva faz com seu traço é um ato de amor severo pelo país. E amor severo, às vezes, é a única linguagem que o poder ainda não aprendeu a comprar.
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