O dinheiro sem fronteiras dos BRICS e a corrida silenciosa por um novo sistema financeiro
Enquanto o dólar domina titulares, blocos emergentes constroem a infraestrutura digital que pode redesenhar quem controla o fluxo de riqueza no mundo

Há uma revolução em câmera lenta acontecendo nos bastidores da economia global, e ela cabe num acrônimo que muita gente já esqueceu de levar a sério: BRICS. A notícia de que o bloco estuda integrar sistemas de pagamentos rápidos e moedas digitais de bancos centrais — as chamadas CBDCs, do inglês Central Bank Digital Currencies — pode parecer técnica demais para o noticiário do dia, mas carrega uma pergunta enorme: quem vai controlar a infraestrutura financeira do século 21?
Para entender o que está em jogo, vale um passo atrás. O sistema financeiro internacional hoje opera em grande parte sobre trilhos americanos — o dólar como moeda de reserva, o SWIFT como rede de mensagens interbancárias, e a capacidade dos Estados Unidos de usar sanções econômicas como arma geopolítica. Foi exatamente essa arquitetura que isolou a Rússia após 2022 e que pressiona o Irã há décadas. Os BRICS, que reúnem Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul e uma lista crescente de países convidados, não são um bloco coeso ideologicamente — mas compartilham o incômodo de depender de uma infraestrutura que pode ser usada contra eles.
É nesse contexto que entra a tecnologia. CBDCs são versões digitais de moedas nacionais emitidas diretamente por bancos centrais — diferentes de criptomoedas privadas como o Bitcoin. A China já opera o yuan digital em escala real, com centenas de milhões de transações registradas em programas-piloto. Brasil, Índia e outros membros do bloco têm projetos em estágios variados. A ideia de interligar esses sistemas cria a possibilidade concreta de transações internacionais sem passar pelo dólar ou pelo SWIFT — algo que há dez anos soaria como ficção científica financeira.
O desafio não é só técnico. É político, regulatório e de confiança mútua. Integrar sistemas de pagamento significa acordar protocolos comuns, resolver disputas de câmbio e, sobretudo, aceitar algum grau de transparência entre países com interesses frequentemente divergentes. A China quer liderança tecnológica; a Índia quer autonomia sem depender de Pequim; o Brasil busca um assento relevante sem romper com o Ocidente. Essa geometria variável é tanto a força quanto a fraqueza do projeto.
O que a ciência econômica e a experiência histórica ensinam é que infraestruturas financeiras raramente mudam de forma abrupta — mas quando mudam, o fazem de forma irreversível. O euro levou décadas para virar realidade; o SWIFT foi construído nos anos 1970 e ainda domina o planeta. A pergunta não é se um sistema alternativo vai surgir, mas quem vai sentar à mesa quando ele for desenhado — e quais países, empresas e cidadãos vão se beneficiar das regras escritas agora, em reuniões que quase ninguém cobre.
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