O preço do desmonte: como a destruição da Conab chegou à mesa do brasileiro
A alta dos alimentos não é acidente — é resultado direto de escolhas políticas que enfraqueceram o sistema público de abastecimento

Nas vésperas de um segundo turno que divide o país, um tema essencial corre o risco de se perder no ruído eleitoral: a comida está cara, e isso tem explicação institucional. A Revista Fórum publicou análise conectando a alta dos preços dos alimentos ao desmonte sistemático da Companhia Nacional de Abastecimento, a Conab, durante o governo Bolsonaro. Não é retórica partidária — é uma cadeia de causa e efeito que merece atenção analítica.
A Conab foi criada justamente para regular o mercado interno de alimentos, formando estoques estratégicos, monitorando preços e garantindo que a produção do agronegócio e da agricultura familiar chegasse à população com menor volatilidade. Nos governos Lula e Dilma, a empresa operou como instrumento central da política de segurança alimentar. A partir de 2019, sofreu cortes orçamentários, perda de quadros técnicos e esvaziamento de suas funções regulatórias. Sem estoques reguladores robustos, o mercado interno fica mais exposto a choques externos e à especulação.
O impacto é mensurável no cotidiano. O Brasil, maior exportador mundial de alimentos em diversas categorias, conviveu nos últimos anos com índices de insegurança alimentar que chegaram a afetar mais de 33 milhões de pessoas, segundo o relatório da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar divulgado em 2022. Exportamos proteína animal e importamos fome — essa contradição não é inevitável, é política.
A discussão reaparece agora porque o segundo turno no Acre, com Flávio Bolsonaro liderando com folga segundo a AtlasIntel, e a disputa nacional apertada, segundo o CNT/MDA, colocam em jogo exatamente o modelo de Estado que o Brasil quer adotar. Um Estado que regula e protege o acesso a bens essenciais, ou um Estado que se retira e entrega ao mercado a responsabilidade de garantir que as pessoas se alimentem.
Não se trata de estatismo versus liberalismo em abstrato. Trata-se de saber quem arca com o custo quando o mercado falha — e no caso dos alimentos, quem arca são sempre os mais pobres. A cesta básica subiu, o feijão subiu, o óleo subiu. Esses preços têm endereço político.
A mobilização de grupos como 'Cristãos pela Democracia', que encerrou caravana nacional em Salvador, e a rejeição de eleitores indecisos à conduta de Flávio Bolsonaro no debate indicam que parte do eleitorado percebe algo além da polarização superficial: percebe que gestão importa, que instituições importam, que o desmonte tem preço. E esse preço, tragicamente, está sendo pago parcelado em cada ida ao supermercado.
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