O espelho colombiano: quando silenciar a mídia pública é o primeiro passo do autoritarismo
O que acontece na Colômbia com o jornalismo independente não é um caso isolado — é um roteiro que bate à porta do Brasil

A ultradireita colombiana encerrou o jornalismo da mídia pública e silenciou rádios comunitárias conhecidas como 'rádios da paz'. O episódio passou quase despercebido no noticiário brasileiro, sufocado por disputas eleitorais antecipadas e escândalos domésticos. Mas quem acompanha a geopolítica latino-americana sabe que ignorar Bogotá é um erro estratégico — e democrático. O que ocorre ali é um roteiro, não uma exceção.
A mídia pública cumpre uma função que o mercado privado estruturalmente não cobre: dar voz a regiões, comunidades e narrativas sem valor comercial imediato. As rádios da paz colombianas, por exemplo, atuavam em territórios afetados pelo conflito armado, sendo instrumentos concretos de reconstrução social no pós-Acordo de Paz de 2016. Silenciá-las não é apenas um ataque à liberdade de imprensa — é desfazer ativamente um processo de pacificação reconhecido internacionalmente. O custo humano é imenso e invisível.
No Brasil, o cenário tem paralelos que merecem atenção. A Empresa Brasil de Comunicação, a EBC, sobreviveu a cortes orçamentários severos durante o governo Bolsonaro e ainda não recuperou plenamente sua capacidade operacional. Ao mesmo tempo, o episódio desta semana em que o Estadão publicou um vídeo enganoso sobre um ato de Lula no Rio de Janeiro e foi desmentido publicamente expõe uma dinâmica preocupante: a desinformação não vem apenas das margens — ela encontra espaço em veículos de prestígio histórico. Quando a mídia comercial falha na curadoria e a mídia pública está fragilizada, quem paga o preço é o cidadão.
A conjuntura regional também importa. Milei na Argentina, a ultradireita na Colômbia, os movimentos de Flávio Bolsonaro defendendo execução sumária de suspeitos em ato público no Rio — há uma gramática comum circulando pelo continente. Essa gramática associa segurança pública a supressão de direitos, comunicação independente a inimigo político, e Estado de direito a obstáculo. Não é retórica acidental: é projeto.
O Brasil entra em 2026 num ambiente informacional fragmentado, com redes sociais amplificando extremismos e com um debate sobre regulação da mídia que ainda não encontrou equilíbrio entre liberdade de expressão e responsabilidade editorial. O caso colombiano deveria funcionar como alarme. Destruir os canais de comunicação pública é sempre apresentado como corte de gastos ou combate à propaganda governista. Raramente é nomeado pelo que é: a demolição deliberada de infraestrutura democrática.
Observar a Colômbia com seriedade analítica é também uma forma de autocuidado democrático. O silêncio das rádios da paz não é assunto de lá. É ensaio do que pode vir.
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