Quando uma geleira desaba, o mundo inteiro treme
O colapso no Nepal não é uma tragédia distante: é o espelho do que estamos construindo aqui

No final de abril, uma geleira no Nepal colapsou de forma catastrófica, desencadeando sismos secundários e inundações que devastaram comunidades inteiras no vale abaixo. Imagens de rios de lama engolindo pontes e casas circularam por horas nas redes sociais e sumiram do noticiário com a mesma velocidade. Mas o fenômeno em si não desaparece quando a tela escurece.
O que aconteceu no Nepal tem nome científico: glacial lake outburst flood, ou GLOF, uma inundação provocada pelo rompimento abrupto de lagos represados por gelo ou morrenas. Com o aquecimento global acelerando o derretimento das geleiras do Hindu Kush-Himalaia, a frequência e a intensidade desses eventos têm aumentado de forma documentada. Um estudo publicado na revista Nature Communications em 2023 estimou que cerca de 15 milhões de pessoas vivem em zonas de risco direto de GLOFs ao redor do mundo, concentradas sobretudo em países do Sul Global com menor capacidade de resposta. Não é acidente. É injustiça climática com endereço certo.
O Brasil assiste a tudo isso de uma posição peculiar: somos um dos maiores emissores históricos por desmatamento, ao mesmo tempo em que abrigamos a maior biodiversidade tropical do planeta e comunidades que dependem diretamente de serviços ecossistêmicos para sobreviver. E enquanto o Ministério da Fazenda discute prorrogar por dois meses um imposto de 12% sobre exportações de petróleo, o que se debate de fundo é a nossa capacidade, ou falta dela, de redirecionar receitas fósseis para a transição energética e para a proteção de populações vulneráveis.
A geleira que ruiu no Nepal não rompeu sozinha. Ela acumulou décadas de pressão térmica gerada por um modelo econômico que ainda trata a atmosfera como lixeira gratuita. Cada barril exportado sem taxação adequada, cada queimada na Amazônia contabilizada como custo zero, cada política de adaptação climática adiada é uma pequena fissura nessa estrutura de gelo. O colapso, quando vem, parece repentino. Não é.
A boa notícia, e insisto em buscá-la, é que existem alternativas em construção. Comunidades ribeirinhas no Acre e no Pará já operam sistemas de manejo florestal comunitário que geram renda sem devastar. O mercado de carbono voluntário, quando bem regulado e com participação das populações locais, pode ser um instrumento real de redistribuição. A economia solidária de base ecológica não é utopia: é prática documentada em centenas de territórios.
O Nepal nos lembra que o tempo entre o acúmulo silencioso e o colapso visível é menor do que queremos acreditar. Olhar para aquelas montanhas e reconhecer nossa cumplicidade não é catastrofismo: é o primeiro passo honesto para mudar de direção.
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