O Panamá nos ensina: quando um povo diz não à mineração, a natureza respira
A declaração de inconstitucionalidade da mina Cobre Panamá não é apenas uma vitória jurídica — é um sinal de que soberania territorial e saúde ecológica são inseparáveis

Em novembro de 2023, dezenas de milhares de panamenhos foram às ruas em um dos maiores protestos da história do país. O alvo era o contrato entre o governo e a mineradora canadense First Quantum Minerals, que garantia a operação da mina Cobre Panamá — uma das maiores minas de cobre a céu aberto do mundo. A Suprema Corte do Panamá respondeu à pressão popular declarando o contrato inconstitucional. O governo encerrou as operações. A First Quantum, que chegou a produzir cerca de 350 mil toneladas de cobre por ano no local, foi forçada a paralisar tudo. Não foi um decreto de cima para baixo: foi democracia ambiental em movimento.
O que aconteceu no Panamá importa para o Brasil — e muito. Vivemos um momento em que pressões externas sobre nossos recursos naturais se intensificam, como aponta a análise do Global Times sobre a postura de Trump em relação à América Latina como uma espécie de quintal estratégico. Não é exagero: a Amazônia, o Cerrado, o Pantanal e o pré-sal estão no centro de disputas geopolíticas e econômicas que raramente aparecem nas manchetes com a clareza que merecem. Quando comunidades indígenas, ribeirinhas e quilombolas resistem ao avanço do garimpo ilegal ou de grandes projetos de extração, elas estão fazendo exatamente o que os panamenhos fizeram: afirmando que soberania não é apenas uma palavra em constituição, é território vivo.
A ciência ampara essa resistência. Estudos publicados na revista Science mostram que territórios indígenas formalmente demarcados são os biomas mais eficientes do mundo no sequestro de carbono e na manutenção da biodiversidade — mais do que muitas unidades de conservação convencionais. Proteger esses territórios não é romantismo; é a política climática mais custo-efetiva disponível. E aqui entra a economia solidária: comunidades que vivem da floresta em pé, do extrativismo sustentável, do turismo de base comunitária e da agroecologia geram renda real sem destruir o capital natural que as sustenta. Não é utopia — é o que o movimento de castanheiros do Acre, as quebradeiras de coco do Maranhão e os pescadores artesanais do litoral nordestino já demonstram na prática há décadas.
O caso panamenho também lembra que a luta ambiental tem custo. Houve repressão, houve mortes, houve pressão econômica feroz de uma corporação bilionária. Mas a combinação de mobilização popular, argumentação jurídica sólida e consciência ecológica venceu. O Brasil tem ingredientes semelhantes: uma Constituição que reconhece o meio ambiente como direito fundamental, um movimento socioambiental com décadas de experiência e uma biodiversidade que é, literalmente, patrimônio da humanidade. O que nos falta não é capacidade — é a disposição coletiva de tratar a natureza não como recurso a explorar, mas como condição de existência a proteger. O Panamá plantou uma semente. Cabe a nós decidir em que solo ela vai brotar.
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